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Dias malditos

Ivan Búnin · Carambaia · 2023 · capa dura · 212 p.

Sobre

Um retrato assustador dos dois anos subsequentes à tomada do poder pelos bolcheviques constitui Dias malditos, diário do escritor Ivan Búnin (1870-1953), publicado pela CARAMBAIA em sua primeira tradução no Brasil. Não se trata apenas de um relato do caos que se instalou nas ruas de Moscou e Odessa (na atual Ucrânia), as duas locações do diário, mas de um ponto de vista profundamente crítico ao bolchevismo. Em pouco tempo, o autor, que chamou Vladimir Lênin de “bastardo e idiota moral desde o berço”, se exilaria na França.

Considerado um grande estilista, Búnin foi o primeiro escritor russo a ganhar o prêmio Nobel, em 1933. Em Dias malditos, sua escrita poética – que foi comparada por críticos a um bordado – dá lugar a registros marcados pela urgência, num mosaico de notícias de jornais, fatos testemunhados e informações de boca a boca. O tom é de inconformismo. “Está para nascer gente mais vigarista”, desabafa Búnin sobre os bolcheviques. As notícias e rumores são apavorantes: saques, fuzilamentos, massacres de judeus, julgamentos sumários, bebedeiras, escassez de alimentos. Em dado momento, o próprio escritor se vê no meio de um fogo cruzado quando sai para a rua.

Ao caos provocado por revolucionários e comunistas soma-se a guerra civil entre os exércitos vermelho e branco e as escaramuças de alemães e franceses no território russo devido à Primeira Guerra Mundial. Búnin destaca a presença de camponeses nas cidades, ao lado de operários que se comportam, segundo ele, como fanfarrões. Para o escritor, o que estava acontecendo na Rússia era mais grave do que o período do terror pós-Revolução Francesa. “Qual um etnógrafo, o autor nos detalha como o ressentimento – historicamente justificado – foi manipulado para colocar em prática uma desforra apenas aparentemente consciente”, escreve no posfácio a tradutora Márcia Vinha.

Mais do que a repulsa que lhe causam os revolucionários nas ruas, Búnin execra os escritores que aderiram aos novos tempos, como Vladimir Maiakóvski, Aleksandr Blok e Maksim Górki, com quem havia mantido uma forte amizade antes da revolução. Considera-os oportunistas, vaidosos e repletos de boas intenções fingidas. “É horrível dizer, mas é verdade: se não fosse pela pobreza do povo, milhares de intelectuais seriam as pessoas mais infelizes’, escreve.

Dias malditos foi publicado pela primeira vez entre 1926 e 1927, em forma seriada, no jornal Vozrizhdenye, escrito em russo e publicado na França. Na União Soviética, uma versão severamente censurada saiu em meados dos anos 1950, durante a relativa abertura do regime promovida pelo dirigente Nikita Kruschev. Somente em 1989, à beira do fim da URSS, foi lançado na íntegra.

Com mais de quarenta edições em menos de uma década, Dias malditos tem uma influência única na formação política e humanística do pensamento russo atual. Na continuidade de uma tradição marcada por Aleksandr Púchkin, e na contramão do que exigia a literatura soviética e a propaganda política, Búnin retrata o povo russo como anti-herói: tacanho, sem conhecimento da arte ou da história, confundindo opressão política com liberdade e acreditando em falsos profetas.

Visto como um mestre da narrativa curta, Búnin teve sua obra admirada por diversos escritores, de Rilke a Nabokov, e hoje consta no currículo escolar nacional russo. No cinema, Búnin foi retratado como um homem agressivo e beberrão em Dnevnik ego zheny (O diário de sua esposa), dirigido por Aleksey Uchitel e lançado em 2000. Já Dias malditos inspirou em parte o filme Solnechnyy udar (Insolação), de 2014, realizado por Nikita Mikhalkov.

SOBRE A EDIÇÃO   

O projeto gráfico de Dias malditos é de Bruna Keese e utiliza, na capa, a reprodução de uma gravura em metal da artista Ana Calzavara.

Ficha técnica

Autor
Ivan Búnin
Tradutor
Marcia Vinha
Ilustrador
Ana Calzavara
Idioma original
Russo
ISBN
9786554610445
Ano
2023
Páginas
212
Formato
Capa dura
Dimensões
21,2 x 13,6 x 1,8 cm
Acabamento
Capa dura laminada
Projeto gráfico
Bruna Keese
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